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quinta-feira, 26 de junho de 2014




Havemos de entender o ofício da poesia.
É tempo de abrir as portas ao trabalho
das palavras, de tecer os lugares da casa
com poemas de luz.
Dança a lua sobre o rio, num lugar chamado
tempo há sons que dançam no vento.
Dançam na noite as palavras
dos homens altos.
O livro ainda alimenta a nossa esperança.

Não sabemos quando a noite se perdeu,
mas a cidade já corre para o fogo do dia.
A luz espreita o interior das abandonadas
sombras, com a sua escrita solar.
O rio já começou a azular, a deixar
o tom cinza, venham reaver a esperança.

Havemos de entender o ofício das manhãs.



sexta-feira, 29 de março de 2013

Somos Silêncios Habitados Por Dentro

 Talvez Novembro 

Se desato os lugares do tempo, é só para procurar
a sombra curva do poema

as palavras que me deste são pátios onde começam
os caminhos, onde olho para trás e te encontro. 


domingo, 4 de setembro de 2011

Somos Silêncios Habitados Por Dentro






O Sal das Sílabas

I
Vem ver o mar, conhecer o sabor do sal,
embalar nas ondas a felicidade branca das crianças,
cantar o amor que cresce da luz.

Vem ver o mar, a saudade é a memória dos ventos
a lembrança de um sorriso, de um olhar.

Vem ver o mar, há um tempo de partir,
há um tempo de chegar.

II
Homem do mar de Setúbal,
ficas parado no olhar do rio...
nesse silêncio azul habitado por dentro,
nessa saudade salgada de memórias vivas.

Observas o sal (líquido) das sílabas,

o decifrar dos ventos no voo das gaivotas,

escutas o grito branco das ânforas,
a alma azul do pensamento
adormecida no coração das águas.

Homem do mar de Setúbal,
herói tantas vezes ignorado
que trazes um verso de sal entre as tuas mãos,
um rosto marcado pelo rumor das ondas,
uma palavra liberta no aceso navegar do mundo.
O teu silêncio é o olhar que vê
a raiz (inatingível) das marés vazias,
o coração oceânico do leito do rio
abandonado ao aroma das algas.

Homem do mar de Setúbal,
o teu destino irrompe desse azul interior
com palavras de vida,
amas e sonhas ao ritmo incandescente
da (imprevisível) luz.
III
O rio tem ainda o respirar das sombras da noite.
Cada olhar é uma asa debruçada sobre a alma,
um céu lavrado em sulcos de infinito
e tu, silêncio habitado pela aura das mãos,
já navegas o tempo entre o sono das águas,
um bote salgado cantando o seu nome
com letras desenhadas ao sabor do rio:

“Amor à Vida” – grita o Zé pescador
com os braços estendidos em forma de remos.
IV
Pescadores, são enfim um lugar perto do mar
mãos e rosto a sonhar azul,
são salgadas as mãos que seguram a esperança das redes,

são enfim asas na distância do olhar
ondas, aves, astros, navios na madrugada
velas erguidas nos mastros,
Nossa Senhora, estrela do mar,

são enfim o segredo da tarde,
saudades, poentes e luar,
monumento que se ergue
num lugar perto do mar.

Com este poema, obtive o primeiro prémio dos "Jogos Florais" promovidos em 2006 pelo "Stella Maris - Apostolado do Mar", de Setúbal. No ano anterior, em Maio, a mesma organização tinha procedido à inauguração de um monumento dedicado ao "Homem do Mar", da autoria do escultor António Pacheco, localizado junto ao rio Sado.

domingo, 31 de julho de 2011

Somos Silêncios Habitados Por Dentro

“Não somos para saber, sabemos para ser”

                                                                       (Jesus Herrero)

Sobre a poesia…
 
A poesia será casa     quando dermos
as mãos     e formos cuidar dos versos
 
a poesia será asa     quando a amizade
reacender o sonho      de cada novo dia
 
a poesia será água     quando a sede
de viver     inundar o tempo
 
a poesia será tempo      quando o olhar
se detiver na linha do horizonte
e uma vela nascer na lonjura desse azul
 
a poesia será vida     quando o amor
nos vier bater à porta     e inesperadamente
rodarmos (no real sentido) a chave do coração.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Somos Silêncios Habitados Por Dentro

Somos Silêncios Habitados Por Dentro

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia; e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado para sempre, à margem de nós mesmos.“
 (Fernando Pessoa)

Perguntam-me muitas vezes o que é a poesia

respondo-lhes que a poesia é uma casa
habitada de palavras     onde cada palavra
é uma janela aberta

respondo-lhes que a poesia é uma ponte
que encurta as distâncias que separam os homens

respondo-lhes que escrever um poema
é como atravessar um deserto     que a escrita
é um caminho onde aprendemos a conhecer-nos
onde nos questionamos e recrudescemos   

o que não lhes digo      é que muitas vezes
a poesia é tão só     a coragem de escrever o silêncio.

                                      Fernando Paulino