quinta-feira, 30 de outubro de 2014

NÃO POSSO AMAR O DESTINO

      São quase onze horas, o Salgado ainda dorme. O tempo parou no sono do rio, no abandono das areias, na imobilidade das rochas.
      Sabemos que o sono é que nos salva, efectivamente se não dormíssemos já tínhamos destruído o planeta, mais horas a poluir o ar com escapes de automóveis e indústrias, mais horas a consumir recursos naturais, mais horas a abater florestas, e tudo o mais que possamos ou queiramos imaginar, basta-nos para tal pensar nas nossas inúmeras profissões.
      Mas como tudo o que tem princípio, tem fim, também o sono do Salgado está a acabar, no quarto sobre a cama de ferro, Salgado sonha o derradeiro sonho, não direi dessa noite porque o sol já vai alto, mas desse descanso de guerreiro a que cada um de nós tem direito no final de cada dia. Esse último sonho, é mais um daqueles sonhos desordenados, sem pés nem cabeça como se usa dizer, que não fazem qualquer sentido.
     
      Salgado está parado em frente ao mar, observa o sal líquido das sílabas, o tempo parou no sono do rio, no abandono das areias, na imobilidade das rochas, no decifrar dos ventos, no voo das gaivotas.       Salgado escuta o rumor das ondas, o grito branco as ânforas, a alma azul do pensamento adormecida no coração das águas. Fica parado no olhar desse rio, nessa saudade salgada que habita toda a alma, apenas ouve o eterno grito das ondas entre os grãos de areia. Olha à sua volta, o seu olhar é uma asa debruçada sobre o rio, um céu lavrado em sulcos de infinito. O seu olhar é um sonho murmurado no vento, o seu olhar é um rosto. Salgado espera um rosto, um rosto indefinido na penumbra do sonho, um rosto adivinhado, espera um rosto na sombra das aves.
      
      No pequeno quarto, que o sol invade por entre as frinchas da persiana, Salgado abre finalmente os olhos, busca a fresca memória do sonho, sabe que são cinco os rostos que procura, cinco como os sulcos na superfície das mãos que lhe lavam agora o rosto, alteia a persiana procura encontrar no destino do sonho, a origem da luz, o princípio da raiz tranquila.
   Quando ligou o computador eram onze e vinte da manhã, Salgado ficou sobressaltado com o coração a bater depressa, no ecrã um titulo, tamanho 22, estava lá inscrito como se de feitiço se tratasse. “não posso amar o destino”

quinta-feira, 26 de junho de 2014




Havemos de entender o ofício da poesia.
É tempo de abrir as portas ao trabalho
das palavras, de tecer os lugares da casa
com poemas de luz.
Dança a lua sobre o rio, num lugar chamado
tempo há sons que dançam no vento.
Dançam na noite as palavras
dos homens altos.
O livro ainda alimenta a nossa esperança.

Não sabemos quando a noite se perdeu,
mas a cidade já corre para o fogo do dia.
A luz espreita o interior das abandonadas
sombras, com a sua escrita solar.
O rio já começou a azular, a deixar
o tom cinza, venham reaver a esperança.

Havemos de entender o ofício das manhãs.



sexta-feira, 29 de março de 2013

Somos Silêncios Habitados Por Dentro

 Talvez Novembro 

Se desato os lugares do tempo, é só para procurar
a sombra curva do poema

as palavras que me deste são pátios onde começam
os caminhos, onde olho para trás e te encontro. 


domingo, 4 de setembro de 2011

Rio Azul

Somos Silêncios Habitados Por Dentro






O Sal das Sílabas

I
Vem ver o mar, conhecer o sabor do sal,
embalar nas ondas a felicidade branca das crianças,
cantar o amor que cresce da luz.

Vem ver o mar, a saudade é a memória dos ventos
a lembrança de um sorriso, de um olhar.

Vem ver o mar, há um tempo de partir,
há um tempo de chegar.

II
Homem do mar de Setúbal,
ficas parado no olhar do rio...
nesse silêncio azul habitado por dentro,
nessa saudade salgada de memórias vivas.

Observas o sal (líquido) das sílabas,

o decifrar dos ventos no voo das gaivotas,

escutas o grito branco das ânforas,
a alma azul do pensamento
adormecida no coração das águas.

Homem do mar de Setúbal,
herói tantas vezes ignorado
que trazes um verso de sal entre as tuas mãos,
um rosto marcado pelo rumor das ondas,
uma palavra liberta no aceso navegar do mundo.
O teu silêncio é o olhar que vê
a raiz (inatingível) das marés vazias,
o coração oceânico do leito do rio
abandonado ao aroma das algas.

Homem do mar de Setúbal,
o teu destino irrompe desse azul interior
com palavras de vida,
amas e sonhas ao ritmo incandescente
da (imprevisível) luz.
III
O rio tem ainda o respirar das sombras da noite.
Cada olhar é uma asa debruçada sobre a alma,
um céu lavrado em sulcos de infinito
e tu, silêncio habitado pela aura das mãos,
já navegas o tempo entre o sono das águas,
um bote salgado cantando o seu nome
com letras desenhadas ao sabor do rio:

“Amor à Vida” – grita o Zé pescador
com os braços estendidos em forma de remos.
IV
Pescadores, são enfim um lugar perto do mar
mãos e rosto a sonhar azul,
são salgadas as mãos que seguram a esperança das redes,

são enfim asas na distância do olhar
ondas, aves, astros, navios na madrugada
velas erguidas nos mastros,
Nossa Senhora, estrela do mar,

são enfim o segredo da tarde,
saudades, poentes e luar,
monumento que se ergue
num lugar perto do mar.

Com este poema, obtive o primeiro prémio dos "Jogos Florais" promovidos em 2006 pelo "Stella Maris - Apostolado do Mar", de Setúbal. No ano anterior, em Maio, a mesma organização tinha procedido à inauguração de um monumento dedicado ao "Homem do Mar", da autoria do escultor António Pacheco, localizado junto ao rio Sado.